quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Calor humano

Calor, muito calor.

Em casa, bebendo água gelada e sendo dominado pelo vento fraco e inútil do ventilador, eu ficava sonhando com neve, com chuva, com ventanias. Olhava para a tevê sem realmente prestar atenção, comecei a visualizar as pessoas vestindo casacos e cachecóis em minha mente. Desisti de pensar.

Tá calor.

Na rua eu andei com aquele sol em cima de mim, queimando meu couro cabeludo, me tirando a energia, a concentração, a existência. Eu quase ia de quatro pro chão me arrastar de volta para casa. Grande merda beber água, cinco minutos depois voltava à mesma sensação. Queria ver um otimista arranjar alguma coisa boa nesse clima desgraçado.

Eu andava ou eu rastejava e mal sabia virar o pescoço porque tinha conhecidos ali perto tanto faz fui andando aliás fui rastejando querendo ficar pelado mesmo sabendo que não adiantava muito e a camisa velha pesava uma tonelada o suor aumentava esse peso minha cabeça pesava e girava doía eu queria sentar deitar pairar não existir.

Muito calor.

Mercado. Água. Dinheiro. "Seu troco". Foda-se o troco. Água. CADÊ A ÁGUA? Peguei a água, virei na minha cabeça os dois litros e fiquei rindo da cara da moça do caixa, espantada. As pessoas ainda se importam com bons modos num dia assim? "Tchau, fia", eu falei rindo apenas porque... não sei o porquê, mas eu estava rindo como se estivesse bêbado. Por que "fia", se eu nunca falo errado? Acho que abreviar as palavras que saem da minha boca por causa do cansaço, quando eu acabei de tomar um banho de dois litros de água que custaram vinte reais para apenas me refrescar e restaurar as energias é o que chamam, no momento, de ironia. Eu não precisava do "fia", mas precisava da cara de paspalha da moça do caixa. Paspalha! Ninguém usa mais essa palavra. Caramba...

Dali a pouco eu não precisava do "fia" ou qualquer outra coisa, mas mais água. Ônibus. Se estivesse lotado acho que eu me matava. Faltou pouco pra não sufocar com ele vazio. Caminhar. Pessoas. Carros. Atravessar a rua... agora. Cadê minha casa, que na verdade é um apê, mas eu só sei chamar de casa?

"Boa noite", o zelador falando. "Tá, tá...". Elevador quente minha cabeça latejando eu não sei se choro ou se rio da minha cara de morto no espelho do elevador por que eu fui morar no último andar? chaves as chaves ah no bolso o bolso achei abre essa porta.

Isso! Eu gemi de alívio, um alívio tão sincero que, se algum vizinho ouviu, achou que eu estava transando. Corri até a cozinha, o que eu tinha de água joguei na minha cara, no meu corpo já sem roupa e bebi o que pude, desesperado.

Banho. E dos gelados.

Abri a porta e vi uma barata asquerosa, com as anteninhas atrevidas se mexendo no meu boxe. Nunca matei barata. Mais que nojo. Medo. Horror. Fobia.

Se eu estivesse raciocinando, teria pulado e chamado o zelador. Mas não fui simpático com ele hoje e não, eu não estava raciocinando.

Ah, hoje essa vadia cretina vai ter o que merece...

Vassoura, chinelo, inseticida. Violência, bastante. Relaxado, já antes de sentir a água gelada.

3 comentários:

o intruso disse...

tudo por causa da "fia"...
kkkk
adorei!

Caio Paranhos disse...

Tendências contemporâneas.

Deixe De Viver disse...

Vadia cretina? Muito a cara do 3ºA kkkk. Adoro Seu Textos Humbertiiinho *-* Beijinhos.